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Quando monto um puzzle costumo ter uma inquietação latente: será que já perdi alguma peça? Porque numa das últimas vezes, alguém cujo nome não vou pronunciar, mas tem 4 patas e muito pelo, teve a bondade de comer uma pecita, e a tal da Monalisa não ficou completa. Admito que não foi fácil lidar – nem com o puzzle, nem com a culpada.

Mas, refletindo melhor sobre isto, ocorreu-me que um espaço vazio é, na maior parte dos casos, desejável… Um potencial por explorar, um ângulo novo por onde olhar. E dá-me a sensação de que no autocuidado isso é igualmente relevante.

Muitos de nós, em algum momento, tornamo-nos sensíveis à necessidade de um cuidado consigo mais atento, e o mais natural é procurar novas rotinas, práticas, ações – ou seja, adicionar. Mas se o nosso dia já é cheio, e a nossa mente vive ocupada com mil assuntos e desafiada por infinitas dinâmicas relacionais, como é que é suposto caber mais uma peça? Não cabe – e por isso o puzzle vira o jogo das cadeiras: alguém, ou algo, tem de ficar de fora. Pode funcionar por um tempo, mas mais tarde ou mais cedo vai gerar incómodo.

Gosto, por isso, de olhar para o autocuidado como uma intenção que emerge em simultâneo com as várias peças do puzzle – e como uma escolha intencional de deixar um espaço vazio, para que este seja fluido e preenchido com aquilo que se tornar mais relevante a cada momento.

Se tenho mil assuntos e sou desafiada por infinitas dinâmicas relacionais, como é que cuido de mim no meio disso tudo? Aos mil assuntos, posso experimentar trazer filtros e prioridade um pouco mais claras. Nas infinitas dinâmicas relacionais, posso desenhar melhores limites, expressar as minhas necessidades com clareza e discernir “o que é meu e o que não é”. Isto não requer muito mais tempo da nossa agenda, mas requer uma presença afetuosa e capaz de discernir.

Então, talvez seja interessante aproveitar quando a pecita do puzzle se perde – mesmo que tenha sido a Maitri a comê-la – e ocupar o espaço com algo que nos torne mais íntimos com essa presença, e mais seguros para confiar no nosso discernimento.