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A avó C teria hoje 119 anos, pelo que talvez a expressão autocuidado não fizesse parte do seu vocabulário. Mas isso significa que não faria parte da sua vida? Vou especular.
A avó C era delicada na escolha das suas roupas e tomava o seu tempo para materializar um puxo perfeito: os ganchos eram cuidadosamente colocados, e nenhum fio de cabelo parecia ficar fora do sítio. A mesma delicadeza se sentia nos seus olhos profundos, e na confusão entre o português, o inglês e o espanhol, que a acompanhou nos últimos tempos de vida. A avó C era também rebelde e notívaga, gostava de fazer croquetes na bancada da cozinha pela noite dentro e consta que tinha grandes sonhos quando era mais jovem.
Mas a avó C, como muitas de nós, provavelmente não encontrou espaço para expressar plenamente e explicitamente a sua interioridade. Certamente concretizou algumas das suas aspirações, mas outras terão ficado silenciadas no culto sóbrio e pouco flexível que caracterizou o seu tempo.
Ao dia de hoje, escolho acreditar que a avó C iria aplaudir uma visão integral sobre o cuidado, iria concordar que contribuir para a família, a comunidade, ou sob a forma de uma atividade profissional é um ato nobre, compassivo – e em muitos casos satisfatório – mas que não necessariamente tem de drenar toda a nossa energia. Escolho acreditar que ela me encorajaria a ser sensível às minhas questões internas e simultaneamente audaz nas minhas decisões. Escolho acreditar que ela reconheceria a pertinência da pergunta “o que é realmente importante para mim?”, e estaria disponível para ouvir respostas muito sinceras.
Mesmo não podendo confirmar nada disto, a verdade é que estes “diálogos” com a avó C tornam o caminho mais doce. 🤍